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quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Super Retrô- A Vida de um Otaku nos anos 90- PARTE II

Um dos maiores motivos de sofrimento para uma criatura otaku vivente nos anos 90 era o fator comunicação. No começo da década éramos a cópia do Japão feudal versão terceiro mundo. A nossa Era Meiji estava apenas no começo, e como dizia Fernando Collor, não tínhamos carro- andávamos de carroça. O auge do luxo era carro com vidro elétrico, enquanto na europa e EUA o negócio já era câmbio automático há muito tempo.

XT com disquete de 5'1/2!
Se hoje em dia vibramos com o avanço tecnológico, na década de 90 era tudo primitivo, e sonhávamos com dias melhores. Esqueça as redes sociais, youtube e google. Isso não existia. Internet era um luxo, hava vista que computadores não faziam parte da família. Gentein, até o final dos anos 80, o negócio era computador XT, de telinha verde, pesando trocentos quilos e que só se encontravam em empresas e instituições de ensino. Lembro que a primeira vez na vida que usei um computador foi em 1988... O negócio era ultra mega retrô e não servia pra nada (pelo menos pra mim era a coisa mais sem noção que já tinha visto). 

E a internet? Só em meados da década de 90 é que os computadores começaram a se firmar como um objeto acessível às pessoas "normais", não sendo visto somente como uma ferramenta de trabalho para empresas. A internet vinha de carona, abrindo as portas para o céu e o inferno ao mesmo tempo. Inferno porque a conexão era discada!(minha úlcera pulsa só em lembrar do barulhinho do modem... E quando dava ocupado?) 
O pesadelo de qualquer pai de família começava quando alguém ia usar a internet... As contas de telefone vinham altíssimas, porque se pagava o uso da internet ocupando a linha telefônica- o acesso era calculado por pulsos, e liberado só depois da meia noite. Aos finais de semana era mais barato, mas quem conseguia se conectar com tanta gente tendo a mesma ideia feliz de acessar a internet na mesma hora? E a qualidade? Ah ah! Aquilo era um horror... Uma conexão que caía a todo instante, numa velocidade medíocre. Acha que fazer download de mp3 era essa alegria que é hoje? Ahhhhh.... Uma musiquinha de 4 mb era o equivalente a uns 4gb de hoje. Demorava uma vida inteira! Pra se fazer uma coleção básica de músicas no computador era um sofrimento... Nunca demorava menos de 10 minutos pra baixar uma mísera faixa em qualidade decente, ISSO QUANDO A  CONEXÃO NÃO CAÍA!!!! Pensando nesses infortúnios dos pobres otakus havia inúmeras compressões de um mesmo arquivo, passando de uma música de qualidade sofrível a algo decente, mas que pudesse ser baixado em tempo hábil.

Fazer coleção  de tranqueiras de anime no HD? Praticamente impossível. Os discos tinham capacidades míseras, e NÃO HAVIA GRAVADORA DE DVD. No máximo a gravadora de CD... Quer dizer, na década de 90, não existia a maravilha "made in China".  Isso não era acessível no Brasil. Era como o Blu-Ray a uns anos atrás. Era caro, mitológico, distante e portanto sumariamente aniquilado. DVD... Quem precisava de DVD quando o negócio era no disquete! 

Aliás, lembrei de uma coisa agora...  Houve um certo período em que as gravadoras de DVD ainda eram caras e a gente se virava só com a gravadora de CD... O pen drive começou a surgir no mercado, ainda era um negócio "meio estranho." Dizia-se que os drives de disquete seriam aposentados, e em breve os computadores não seriam mais fabricados com esse dispositivo. Entrei numa briga ferrenha, dizendo que isso era impossível. 

"Não é todo mundo que tem gravadora de CD! Como eu faço pra copiar um arquivo de outro computador que não tivé disquete?!  E se tivé gravadora? Um arquivo pequeno vai ocupar um CD todo?" ps.: nem sonhava em conhecer um CD-RW...
 
"E esse negócio de pen drive?Isso vai substituir disquete? NUNCA! "

Em resumo- tudo o que a gente fala hoje vira EPIC DIALOGUE FAIL num futuro bem próximo quando o assunto é tecnologia.


Voltando...
Sem DVD para nos salvar o negócio era contar com o bom e velho disquete, compactando os arquivos igual sardinha em lata.

Tudo zipado! Espera... Zipado?Ah ah... Não existia WNZIP... O negócio se chamava ARJ, e rodava no DOS... 
Nossa senhora dos otakus aflitos! 99,9% da molecada hoje não sabe usar DOS... Nem vou falar aqui do Windows 3.1 né... Abafa o caso!

Muderrrrnoooo!
Bom, já deu pra ter uma noção do nível da dificuldade em acessar a internet. Preço alto e conexão lenta tornavam praticamente impossível ter uma coleção de tranqueiras de anime como as que temos hoje. No máximo imagens e dados pequenos. Tudo coletado naquele que era o maior site de buscas da época: "CADÊ?" 




Os otakus do Brasil varonil sabiam da existência dos animes, mas para chegar à fonte era preciso andar bastante...  Vieram então os primeiros fansubbers, que supriam a necessidade de assistir novos animes, coisas que não viriam ao Brasil. Todo mundo queria saber o que rolava no Japão, mas era inviável fazer download de séries pela net. A salvação viria dos distros de anime, que VENDIAM FITAS VHS através de catálogos enormes e mais desejados que água no deserto.

FITAS VHS? 

Sim, caro otaku! Pra você que não viveu nessa fase, não tinha DVD! O mais próximo era o LD- Laser Disc. Um CD gigante, do tamanho de um disco de vinil. Aquilo era a melhor qualidade, superior ao que víamos nos videocassetes. Mas não era popular, então só as classes mais abastadas e phynas tinham um troço desses. Relembrando que em uma parte da década de 90 não se via os produtos importados como a coisa mais natural do mundo. Carro importado? Coisa de gente rica. CD player? Nussa! Só as criaturas que viajavam ao exterior pra trazer uma muamba dessa catiguria!

O que o otaku tinha em casa era o bom e velho videocassete e pelo menos uma fita daquele que foi o maior distro do país- o BAC-Brasil Anime Clube



Ter uma fita do BAC em casa era item obrigatório de todo otaku da época. Demorava cerca de dois meses entre o pedido e o recebimento, mas era "A QUALIDADE", era "O ANIME". Como um filho desejado, planejado e adorado. Todo mundo tinha uma pendência de fitinha no BAC, e a alegria era geral quando chegavam em casa. Até hoje assisto minhas fitinhas, depois de ressuscitar meu bom e velho videocassete!

Ladies and gentlemen, uma fita VHS!
Pensam que o BAC tem tantos anos assim? Minha primeira fita foi de 1999. 

Ah tá... Tem gente que acha que 11 anos são uma vida inteira né... I´m getting old.

Mas enfim... o BAC fez a alegria de 10 entre 10 otakus. Os seres superiores e supremos que tinham acesso a mídias que bombavam no Japão eram respeitados e idolatrados por nós que não tínhamos nem condição de pagar uma conta telefônica astronômica. Tais seres criaram grupos de exibição de animes e venda de fitas VHS. E claro, os amigos dos seres abastados faziam cópias do material original e espalhavam para os mais chegados. Temos aqui o método mais primitivo de disseminação de material otaku pelo Brasil varonil.

Mesmo a gente às vezes enfartando por causa da demora do BAC e outros distros, era a coisa mais legal do mundo. Era sofrido, mas era uma alegria inigualável. 

Já no final dos anos 90 a coisa melhorou... A conexão foi ficando mais decente- porém ainda cara, o que limitava muito o acesso. Ainda reinavam os distros como o BAC, e sites de compra de CDs de anime e pop/rock bombavam. 

Redes sociais? Nada de orkut, twitter ou facebook. O negócio era o ICQ. Todos tinham um UIN, um número que servia como seu identificador. Era um primórdio do messenger. Todo mundo tinha um troço daqueles! E o mIRC? Incrível como esse reina até hoje né? Desde aqueles tempos da caverna era indispensável saber pelo menos uma meia dúzia de comandos!

Com a melhoria da conexão de internet tudo ficou lindo e maravilhoso. Hoje mesmo assisti ao show da Utada Hikaru ao vivo via Ustream e foi a coisa mais incrível. Nem preciso dizer as maravilhas para a humanidade que a net de hoje oferece, mas pra quem viveu na fase do carvão, passar pela revolução industrial e ter história pra contar é indescritível. Quem em 1990 e lá vai iria imaginar tantas facilidades? Tudo era um sonho, era algo de se rir. Poder ter uma conexão que ficasse online 24 horas por dia!!! Baixar uma música em menos de 5 minutos!!!! Ter muitos animes em casa!!!! 

Ah... Nostálgico... Claro que muitas histórias surgem dos anos 90, mas acredito que esses dois pontos são o divisor de águas para os otakus brasileiros- a consolidação da animação japonesa, trazida pela Rede Manchete e a popularização da informática. Como todo processo evolutivo, houve muitos percalços, muitos anseios e esperanças por  avanços tecnológicos. Esses tais avanços chegaram. No começo vieram de mansinho, e hoje eu nem sei mais exatamente onde vamos parar. Ainda me lembro da emoção de ter finalmente me livrado da internet discada e ter me tornado praticamente uma mãe-de-santa virtual, baixando tudo que posso no menor tempo possível. Os primeiros amigos virtuais, a primeira convenção de anime... Ai ai... Recordar é viver... Isso me lembra que ainda tenho que passar toda a minha coleção de fitas do Bac pra DVD... Mas antes disso, acho que vou tirar um tempinho pra assistir alguma coisa no meu videocassete...

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Super Retrô- A Vida de um Otaku nos anos 90- PARTE I

Esses dias estava me lembrando de quando comecei a assistir anime... Foi numa daquelas conversas "gente, quanta coisa mudou nos últimos anos!" Sim... É tão surpreendente que quando me lembro das coisas que vivi, parece até mentira...

Se você começou a assistir anime a uns 2 ou 3 anos atrás, não é muita coisa. Mas para mim, com quase 15 anos na estrada otaku, haja história! Contando hoje, certas coisas são absurdamente antiquadas e até engraçadas, mas pra quem viveu a "minha época" de descoberta anime, é um momento nostalgia...
Vamos lá! Pra quem não viveu essa fase, olha o que um otaku brasileiro já passou nessa vida...


Nostálgico ao cubo

Alguns animes já haviam aparecido esporadicamente no Brasil, mas a tsunami  veio com tudo na extinta TV Manchete- hoje Rede TV!. 
O ano era 1996, e um anime apareceu para revolucionar- Saint Seiya, ou melhor- Cavaleiros do Zodíaco. 
OMG, eu me lembro como se fosse hoje !(diálogo de vó detected). - Aquilo era algo fora dos padrões em animação "para crianças". Luta com sangue?Porradaria comendo solta?Uma animação com qualidade superior? - Algo estava errado. E fiquei fascinada com aquilo. Lembro que estava sapeando pelos canais quando  vejo uns personagens de olhos enormes, extremamente bem desenhados, lutando de verdade e... Gentein, a cada soco, 234 litros de sangue. Fiquei louca para assistir aquilo todos os dias! Uma história com sequencia, nada daquelas coisas tolinhas de animação americana... Ohhhhhh.....

Com Cavaleiros do Zodíaco minha popularidade no colégio foi às alturas. Sim! Eu era a única mocinha a gostar de um desenho de pancadaria... Na hora do intervalo eu era praticamente a Deusa Athena entre os cavaleiros de bronze. Aquele bando de moleques e eu discutíamos sobre os episódios e contávamos os capítulos anteriores com A RIQUEZA de detalhes- diga-se os meninos se espancando e eu só olhando, claro. Afinal Deusa Athena é phyna e não parte pra porrada (graças a deus.)
Rayearth
Mal sabia eu que anime era uma coisa viciante e aí pronto... O que a Manchete mandasse a gente via. E todo mundo sabe que Cavaleiros foi um sucesso retumbante. De repente todas as crianças e adolescentes voltaram seus olhos para a animação japonesa, e um admirável mundo novo se abria para os fãs. E as emissoras de tv caíram matando, pra nossa alegria. Depois da Manchete o tio Silvio Santos trouxe alguns animes como Rayearth para o SBT. Tudo bem que era uma versão dublada e todos os nomes foram trocados... Que o SBT mudava de horário mais que qualquer coisa... E daí? Era anime. Era diferente demais pra perder.

Mas quem investiu mais pesado mesmo foi a Manchete, a nossa Animax dos anos 90 (Animax antiga né, porque hoje... )





Depois de Cavaleiros do Zodíaco veio Yoroiden Samurai Troopers, ou Samurai Warriors na versão dublada. Era a era dos heróis de armadura, e tudo que fosse minimamente parecido com Saint Seiya deveria ser explorado até os ossos. 


Samurai Troopers é, para mim, o melhor anime da era de armaduras. Não repetiu o mesmo sucesso de Cavaleiros por não ter litros de sangue jorrando. Na verdade, as semelhanças são somente no fato de usarem armaduras. SÓ. Ok, os "líderes" do grupo usam vermelho e existem particularidades a serem notadas em certas atitudes do grupo. Mas no resto... Juro que a  história de Samurai Troopers  merece um post à parte, só para desmistificar a comparação errônea entre eles e Cavaleiros! Mas tudo bem, isso fica pra outra hora... 

Que mais a manchete trouxe? Sailor Moon!
 
 Eu confesso que achava meio tosquinho, mas e daí? Era diferente do que eu já tinha visto até então... As lutas eram o fim da picada, mas tinha uma história engraçada e com uma trama envolvente... Essa série é o clássico dos clássicos, a vanguarda da era dos grupos femininos com roupinhas super cute lutando contra o mal!






Estamos ainda na era das armaduras, e a bola da vez era "Shurato". Armaduras enoooormes, os caras pareciam integrantes de um carro alegórico de uma escola de samba carioca. O ano era 1996, e apesar de copiar a fórmula de sucesso "lutas+armaduras" de Cavaleiros, apresentava uma história muito interessante, baseada nas mitologias budista e  hinduísta. 


Chega de armaduras! Em 1997 veio o anime revolucionário, cuja dublagem talvez seja a única elogiada entre os otakus do Brasil varonil: YU YU HAKUSHO. Nem vou falar demais sobre ele, porque reina absoluto como um dos melhores animes de todos os tempos. E sem sombra de dúvida, a melhor dublagem feita até hoje.


Sem mais armaduras, agora os mechas ocupavam espaço. Mudando o foco da programação, a Manchete apresentava o programa "US MANGÁ", trazendo OVAs da distribuidora americana de mesmo nome.  Detonator Orgun e Fatal Fury (a exceção da regra mecha-sci-fi) eram alguns dos nomes que pudemos assistir. Ali sim os agora viciados em anime puderam ver o que era uma qualidade superior em animação.  Enquanto as séries de tv costumam ter um orçamento menor, os OVAs e movies são mais bem feitos, e foi ali que eu entendi que nunca mais deixaria de ver essa coisa tão interessante chamada "anime"...

Depois de 1997 a Rede Manchete estava com dívidas até o pescoço, e fechou as portas, levando consigo o período áureo dos animes na tv aberta.  Mas abriu as portas de um mundo novo para milhares de jovens brasileiros, mostrando o caminho de um mundo novo e inesquecível. A Manchete deixa saudades, lembranças  e história pra contar!